A pergunta mais comum de quem está pensando em comprar a primeira casa nos Estados Unidos não é "qual é a taxa de juros hoje" - é "eu me qualifico". E a resposta depende de quatro coisas que nenhuma calculadora de parcela mostra sozinha: o tipo de score exigido pelo tipo de financiamento, quanto da sua renda mensal já está comprometida com dívida, há quanto tempo você tem histórico de crédito nos EUA, e se você tem Social Security Number ou não. Nenhuma delas é segredo - todas têm fonte oficial. O problema é que raramente aparecem juntas, no mesmo lugar, para quem está chegando agora.

1. Score mínimo não é um número só - depende do tipo de financiamento

Um financiamento FHA (garantido pelo governo federal, o caminho mais comum pra quem está começando) aceita score a partir de 580 com entrada de 3,5% - e, tecnicamente, aceita de 500 a 579 com entrada de 10%, embora poucos credores atuem nessa faixa mais baixa na prática. Já um financiamento convencional (não-governamental, via Fannie Mae ou Freddie Mac) historicamente exige score mínimo de 620 - e mesmo com a atualização de novembro de 2025 no sistema automatizado de análise da Fannie Mae (Desktop Underwriter), que deixou de aplicar um corte automático de 620, a grande maioria dos financiamentos aprovados na prática continua ficando acima dessa linha, porque o resto da análise de risco pesa mais quando o score cai abaixo dela. Na prática: quem está no início da construção de crédito tende a olhar primeiro pro caminho FHA, não pro convencional.

2. DTI: o número que decide quanto você pode pegar emprestado

Debt-to-income ratio (DTI) é o percentual da sua renda bruta mensal já comprometido com dívida - incluindo a parcela nova do financiamento. Até 2022, a regra federal de "qualified mortgage" usava um teto fixo de 43%. Em outubro de 2022, o CFPB (o órgão federal que regula produtos financeiros de consumo) substituiu esse teto fixo por um critério baseado no preço do empréstimo (a taxa não pode ultrapassar a taxa média de mercado em mais de 2,25 pontos percentuais) - ou seja, hoje não existe mais um teto federal único de 43%. Na prática, porém, 43% continua sendo a referência mais usada por credores na hora de decidir manualmente, e ficar abaixo disso ainda é o que separa uma pré-aprovação tranquila de uma que precisa de fatores compensatórios (entrada maior, reserva de caixa, renda extra documentada).

3. O problema do "histórico fino" - crédito não é só nota, é tempo

Um score de 700 construído em 8 meses não pesa igual a um score de 700 construído em 4 anos. Sistemas de pontuação como o FICO consideram o comprimento do histórico como um dos fatores do cálculo - não só o score final, mas quantas linhas de crédito existem, há quanto tempo, e como foram usadas. É exatamente por isso que quem chega agora aos EUA - mesmo com disciplina financeira perfeita - começa com o que o mercado chama de "thin file" (arquivo fino): poucas linhas, pouco tempo, mesmo que sem nenhum atraso. Isso não impede financiamento, mas costuma pedir mais tempo de preparação antes da pré-aprovação do que quem já mora no país há anos.

4. Sem Social Security Number? O caminho ITIN existe - com um preço

Quem não tem SSN mas tem um ITIN (Individual Taxpayer Identification Number, emitido pela Receita Federal americana - IRS - via formulário W-7, geralmente pronto em 4 a 6 semanas) não fica de fora do financiamento imobiliário. Existem credores especializados em empréstimos ITIN, uma categoria de financiamento "non-QM" (fora do padrão qualified mortgage). O trade-off é real: por serem considerados de maior risco - histórico de crédito americano tipicamente mais curto, renda às vezes mais difícil de documentar -, esses financiamentos costumam vir com taxa de juros de 0,5 a 2 pontos percentuais acima de um financiamento convencional equivalente. Vale comparar pelo menos 2 credores especializados antes de assinar - a diferença de taxa entre eles costuma ser maior do que no mercado convencional.

5. A entrada muda mais do que parece - 3%, 3,5% e 20% não são só números diferentes

Programas como o HomeReady da Fannie Mae permitem entrada a partir de 3% (com score mínimo de 620 e renda até 80% da mediana da região) e aceitam até fontes como doação familiar e programas de assistência para compor o valor. O caminho FHA pede 3,5%. Nenhum dos dois exige os clássicos 20% de entrada - mas abaixo de 20% no convencional, e sempre no FHA, entra o PMI/MIP (seguro de hipoteca privado, pago mensalmente até atingir determinado patamar de equity), o que aumenta a parcela mensal além do principal e juros. A pergunta certa antes de escolher entrada não é "quanto eu tenho guardado" - é "quanto isso muda a parcela mensal com o seguro embutido".

O que já dá pra fazer, mesmo antes de procurar um credor

Nada disso é sorte, e nada precisa esperar o dia da pré-aprovação. Abrir um cartão garantido (secured card), manter utilização de crédito abaixo de 30% do limite, e não fechar as primeiras linhas de crédito mesmo depois de trocar de cartão - são exatamente os passos que já constroem, mês a mês, o histórico que resolve os pontos 1 e 3 acima antes de você chegar à mesa de negociação. O curso Crédito nos EUA aprofunda cada um deles com um plano de 12 meses.

Aviso

Conteúdo técnico-educacional sobre financiamento imobiliário nos Estados Unidos. Não constitui recomendação de crédito, aprovação de financiamento nem parecer jurídico ou contábil. Score mínimo, DTI e taxa variam por credor e por perfil - consulte um oficial de crédito ou corretor de hipoteca licenciado antes de qualquer decisão.